10 Abril 2026 | Crónicas

SÉP7IMO: entre o documentário, a ficção e o folclore das Beiras

SÉP7IMO não nasce apenas como filme. Nasce como um projeto mais amplo, construído entre a escuta do território, a recolha de matéria humana e simbólica, e a transformação dessa realidade numa narrativa de ficção.

Na sua base, está um duplo movimento: por um lado, o documentário procura aproximar-se das vozes, dos lugares, das memórias e dos imaginários que ainda resistem nas serras e aldeias do interior; por outro, a ficção pega nessa matéria viva e reconfigura-a numa linguagem cinematográfica própria, feita de tensão, silêncio e presença.

O projeto parte de um fascínio profundo pela ruralidade esquecida, pelo medo ancestral e por tudo aquilo que continua a habitar as montanhas portuguesas mesmo quando já não é dito em voz alta. Nesse sentido, SÉP7IMO não se limita a revisitar o folclore tradicional das Beiras como curiosidade ou ornamento. O seu objetivo é mais exigente: perceber como esses mitos continuam a ecoar nas comunidades, na paisagem e na forma como o inexplicável ainda é vivido e nomeado. 

Mais do que um filme de terror, SÉP7IMO constrói-se como um espelho simbólico de comunidades isoladas, dos seus rituais e da necessidade de encontrar culpados para aquilo que não se entende. O projeto trabalha precisamente esse embate entre razão e instinto, entre o saber científico e a dimensão primitiva, entre aquilo que se observa e aquilo que se teme.

É também por isso que o documentário é tão importante. Ele não surge como apêndice promocional nem como simples making-of. Surge como ponto de origem. Como forma de escuta. Como aproximação ao território real, às vozes antigas, às marcas da pedra, aos caminhos, aos currais, aos silêncios e aos gestos que precedem a ficção. A partir daí, o filme ganha corpo e transforma essa matéria numa narrativa mais densa, ritual e sensorial.

No centro de tudo estão os mitos do folclore tradicional das Beiras, não como figura decorativa, mas como linguagem subterrânea do próprio projeto. Bruxas, lobisomens, maldições, presságios e culpas não aparecem aqui como monstros de fantasia desligados do real. Aparecem antes como formas antigas de explicar aquilo que a comunidade não consegue dominar: a diferença, o medo, a violência, o isolamento e a necessidade de encontrar uma ordem no caos. O verdadeiro terror de SÉP7IMO não está apenas no que é sobrenatural. Está no momento em que a comunidade transforma o incompreensível em culpa.

Visualmente, o projeto assume-se como cinema cru, ritual e sensorial. A câmara observa mais do que impõe. A serra não serve de cenário: é personagem. As cantigas ecoam como rezas. O curral surge como útero de pedra, início e fim de um ciclo. Tudo isto ajuda a perceber que SÉP7IMO não quer apenas contar uma história passada entre montanhas. Quer filmar um território onde a paisagem, a memória e o medo continuam vivos.

SÉP7IMO é isso: um projeto que escuta antes de filmar, observa antes de julgar e transforma património imaterial em cinema.

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